Relatos de uma universitária...



     Todos temos algum sonho, bem, meu grande sonho era entrar na Universidade. No ensino médio fiz uma visita à Universidade da minha cidade e me encantei, a partir daquele dia soube que meu lugar era ali, sem saber o que vinha. Assim que conclui o ensino médio,  fiz o vestibular. Estudei muito, mas não passei. Chorei horrores, parecia que o mundo tinha acabado... porque é assim que sentimos quando mexem com nossos sonhos. Passei meses abalada e sem expectativas, mesmo assim decidi tentar o próximo vestibular. Quando foi feita a divulgação do local -para fazer a prova- de imediato me recusei ir, minha mãe insistiu dias e mesmo que eu não acreditasse em passar, ela simplesmente pediu para que eu tentasse, assim fui, na cara e na coragem. Quando liberaram os resultados meu nome não constava na lista, mais uma vez. Confesso que aquilo não me abalou o tanto que minha mãe achou naquele momento e tão pouco o tanto que eu esperava. Naquela época estava trabalhando e só chegava em casa à noite; no dia seguinte quando cheguei em casa havia inúmeras mensagens de dois amigos, um estava eufórico, gritando em áudio e mandando mensagens em caixa alta pelo whatsapp, dizendo que eu havia passado no vestibular, claro que achei que tudo era mentira ou que fizeram montagem para ter meu nome na lista, mas quando pesquisei em um site de notícias, constava que ocorreu uma retificação dos resultados divulgados no dia anterior, pois muitas pessoas haviam passado só que não constavam os nomes na lista de aprovados. Não sei descrever a sensação. Aprendi a ser negativa porque muitas coisas que desejava não dava certo e a negação era uma forma de não me decepcionar caso não conseguisse. A partir daquele dia tive que ver a vida com outros olhos porque era realmente impossível ter passado, já que não me dediquei aos estudos como no outro vestibular, digo que aconteceu um milagre. pois nunca na história da universidade ocorreu uma retificação. Fui toda ansiosa fazer a matricula e conhecer algumas pessoas que seriam meus colegas de classe. Logo de cara fiz uma amiga, foi muito divertido passar horas naquela fila conhecendo um pouco sobre ela e conversando coisas aleatórias. No primeiro dia de aula estava muito ansiosa e nervosa, era algo novo. Os primeiros meses foram difíceis para mim devido ao trabalho e muitas vezes me achava incapaz, sem qualquer conhecimento , resumindo, me rebaixava ao nível intelectual dos meus colegas e me achava uma "burra" total. Cheguei a questionar se ali era meu lugar, se eu conseguiria concluir, se era boa o bastante e por aí vai inúmeros " e se". Já estava em um estágio desgastante de cansaço. É muito difícil trabalhar e conciliar com um curso diurno ou até mesmo estudar. Seu corpo e mente querem descanso, mas você tem que estimula-los a ficarem acordados para concluir inúmero trabalhos, dormir tarde, acordar bem cedo, sair correndo da aula para almoçar, almoçar pouco e sair correndo, literalmente comer só duas colheres de comida, mais uma hora em ônibus, chegar no trabalho esgotado e para quem trabalha de telemarketing - como eu trabalhava- tentar ajudar, ter ferramentas limitadas e mesmo assim ser insultado, mesmo tratando o cliente na maior educação e paciência, acaba com o psicológico. Aos poucos comecei cair em declínio, como o Império Romano. Já não sabia mais o que era saúde mental diante de tantas cobranças na universidade e pressão psicológica no trabalho. Cheguei ao ponto de pegar o ônibus quase chorando ou chorar antes de sair diante de uma rotina maluca, presa em um relógio desenvolvendo crises de ansiedade, sem vida, sem poder sair, ir à igreja... então resolvi fazer uma escolha e a partir daí ter mais noção do que é a vida adulta. Para mim foi muito difícil escolher entre a Universidade e o trabalho porque era meu sonho desde os sete anos, trabalhar para me manter e ser independente e estar na universidade. Conquistei tudo que sempre almejei, mas não era feliz, não tinha vida e meu mundo era cinza. Depois de meses analisando, resolvi pedir demissão do trabalho e continuar no meu outro sonho mais desejado. Foi muito difícil me adaptar à uma vida normal, sem estar presa a um relógio e ter hora marcada para tudo, me senti livre e saudosa devido aos amigos que fiz e apesar dos pesares, sempre adorei trabalhar e era difícil só voltar à estudar. Então, aos poucos percebi que lugares, pessoas e histórias já não me cabiam mais na universidade e naturalmente tudo foi partindo como em um barco em alto mar que agora está no cais e dois minutos depois cruzando o campo além do que os olhos de quem está no cais pode alcançar, acreditem, isso é normal. Jamais entrem na universidade acreditando que será como colégio, com seus grupinhos eternos, os grupinhos muitas vezes se quebram ao longo dos semestres, muitas coisas mudam nessas passagens e pessoas que eram de um grupo pulam para outro e eu me tornei gypsy em grupos na universidade. Apesar disso tudo, senti que poderia ser eu mesma, sem me sentir menor que ninguém e que eu era capaz, sobretudo, me senti grata por cada momento  ao lado de todos e por cada um deles que me ensinaram muitas lições. Não é fácil estar lá dentro. Algumas vezes é necessário abrir mão de muitas coisas para estar na universidade. Além de não ser fácil, muitos professores tornam isso uma experiência exaustiva e com um gosto terrível de fel. O amargo da vida deles escorre e acaba alcançando a todos ou alguns, e o aluno acaba desenvolvendo crise de ansiedade e muitas vezes até a depressão. Muitos profissionais de ensino não têm a consciência de que trabalham com pessoas e cada uma pertencem a um mundo, a forma ríspida que são tratadas desencadeiam inúmeras sensações e angústias. Diversas vezes pensei em desistir do curso, já me senti um nada diante das palavras de professores, vontade de chorar em sala por não compreender nada, desespero ao não atingir a média, mas parei diante de tudo isso e me perguntei: Estou dando o meu melhor? Se sim, não vale a pena nada disso. Não vale a pena ter crise de ansiedade por causa de trabalhos, professores, notas e afins. Sempre lembre-se que você é maior que isso e que não é sua nota ou nada do que disseram de você. Levanta a cabeça e segue firme. Chegar até aqui foi difícil e ninguém te disse que continuar seria fácil. Esse lugar é seu, é seu sonho, você deveria estar aqui e se chegou até aqui mostra o quanto é capaz. Só siga e não desanime. A partir daí percebi as coisas incríveis que conquistei e que aquilo era meu sonho. Não adianta se cobrar tanto, não adianta saber tanto e não ter paz, não ser feliz, não ter vida. Não somos máquinas, não somos palavras negativas e tão pouco a descrença de alguém. Somos o que escolhermos ser: o melhor de nós ou que disseram/dizem de nós. Tudo na vida é uma escolha. Faça escolhas de paz para si. Não desista de si diante das dificuldades, mas, si abrace, si ame. Jamais permita que a universidade/ faculdade roube sua vida, sua felicidade, seus sonhos. Aprenda a libertar-se de coisas que te prendem em uma caixa porque você não é limitado e pode ir além. Se faça bem e faça o bem. Entenda que cada pessoa é um universo, um espaço, uma história e aprenda à ama-las e respeita-las. Essas foram as lições que aprendi ao longo da vida acadêmica que estou tendo. Aprendi também a me olhar no espelho e dizer que consigo e que nada disso é maior do que eu. Sei que há muito para aprender, mas queria compartilhar esse relato para que não desista do seu sonho, não desista de você. Nessa pouca idade, aprendi que haverá obstáculos para tudo na vida e cabe a nós continuar ou desistir, nos limitando ou ampliando os horizontes. Só fica bem e acredite em você!



Com carinho, Isabelle. <3 

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