Eu tinha um sonho: melhorar o mundo para as pessoas.
Partindo disto, me imaginei em inúmeras profissões. Meu sonho de criança era ser médica e construir um hospital acessível a todos, com alas separadas de atendimento para que essas pessoas recebessem mais atenção e cuidado e jamais permitiria que qualquer profissional desrespeitasse o paciente. Minha mãe conta que meu pai se emocionava com tudo que eu dizia, mas esse sonho ruiu quando percebi não ter vocação para isto aos 7 anos. Nesta idade, fiz uma lista, mental, com todos os anos - de 7 aos 20 anos, porque nunca imaginei que viveria "tanto". Esta lista continha tudo que lutaria para conquistar ano após ano.
Aos 15 anos, ensino médio e pressão para saber "qual profissão você vai escolher?", comecei a me desesperar, já que este era o fator que não estava de acordo com a minha lista. Fiz vários testes vocacionais, pensei em ser engenheira civil , depois advogada, pensei até em ser astronauta, entre tantas outras opções. Um dia, perdida em mais um site de teste vocacional, encontrei um balãozinho por nome de "letras", fiquei encucada e indagando sobre o que seria... pensei até que fosse coisa relacionada ao alfabeto, engano o meu. Ao clicar no balão, recebi uma enxurrada de informações sobre o curso e fiquei apaixonada. Parei na frente do notebook e me disse: É isso! Vou fazer letras!
No dia seguinte estava eu perguntando a minha divertida professora de português (Gildasia), se o curso era bom e com toda alegria e rodadinha do mundo (kkk) ela me disse um belo: SIM! Expliquei que estava querendo cursar e ela sempre me apoiou, obvio que com meus pais não foi diferente, mas tive que explicar diversas vezes o que é vernáculas. Creio que relatei algo sobre isto em algum poster por aqui, enfim.
Segui com essa ideia de cursar letras vernáculas e jornalismo depois. Com 15 anos descobri que amava escrever e por ser sempre curiosa, me identifiquei com as duas áreas. Com as áreas escolhidas, estudei e me esforcei para seguir minha listinha feita aos 7 anos. Minha fase de adolescência foi muito difícil, desenvolvi alguns problemas com relação a saúde mental e ninguém ao meu redor percebia, nem mesmo meus pais. Tinha dias que só queria um abraço e chorava noite a dentro, até pegar no sono, todos os dias. Fiquei nesse estado de choro por 3 meses e não encontrava sentido na vida, mesmo conhecendo a Jesus, que na verdade passei a conhecê-lo e a vê-lo como meu melhor amigo a partir destes momentos conturbados. Ao ler recentemente sobre depressão, percebi que meu quadro se encaixava nisto. Fiquei anos lutando contra a vontade de partir, porém, todas as vezes, sentia um abraço apertado enquanto chorava e algo dentro de mim dizia que eu era importante e minha vida era preciosa. Em uma dessas crises, andei em direção a um carro na intenção de morrer sem parecer suicídio, mas minha mãe estava ao meu lado e me puxou perguntando: Você quer morrer, menina? , então eu disse: Qual o sentido da vida? Morrer é a melhor solução e ela chega para todos.
Até hoje lembro a expressão de choque no rosto da minha mãe. Passar por esses momentos é tão difícil ainda mais sozinha, mergulhei no meu âmago para descobrir quem eu era de fato e para descobrir que a dor precisava ser sentida.
Mesmo tendo esquecido a questão do suicídio, me tornei alguém mórbida, na qual ninguém tinha interesse em conversar, só meus amigos próximos. Uma noite chorei e disse a Deus que não suportava mais, que ele poderia me levar ou tirar aquela dor de mim, pedia isso todos os dias em meio as lágrimas. Com 16 anos decidi não viver daquele jeito, mas acabei sendo uma pessoa fria, que sentia alegria nas desgraças alheia, sem piedade. Aos 17 anos cansei de tudo isto, queria concluir o ensino médio e viver em paz, mas lembro como se fosse hoje quando ficava parada na porta da sala vendo as pessoas indo e vindo e me dizendo: aqui não é o meu lugar. Sou uma estranha nesse mundo... Sentia como se não tivesse um dom especial, como se não importasse e, que por sempre pensar diferente, me sentia excluída, fora as rejeições que sofri na infância com relação a amizades e o bullying, que me arrastou ao caos. Com 18 perdi no vestibular para cursar letras, me senti um lixo porque estudei tanto e fiquei me cobrando por meses. Consegui um emprego e lá encontrei um novo mundo, aquilo me mudou para sempre! Era um ambiente com pessoas de todos os jeitos, gêneros, cor, cabelo e etc, mas encontrei pessoa amáveis e que acreditavam em mim, além de me cuidar - sempre serei grata a vocês.
Resolvi prestar o vestibular mais uma vez, mas na hora H acabei desistindo e minha mãe e pai, insistentes que só eles, me convenceram a fazer. Fui, na cara e na coragem! Não acreditei que iria passar, afinal, ainda estava vivendo a fase da negatividade, mesmo Jesus tendo me ajudado a superar boa parte das crises citadas anteriormente. Quando saiu a lista meu nome não estava, me conformei e quando meus colegas, cheio de energia, me perguntaram como fui, só disse: perdi, normal. Sou burra mesmo... eles me olharam e disseram que eu era capaz. Lembro que no dia seguinte, ao chegar do trabalho, haviam inúmeras mensagens de um amigo e da minha prima, eram áudios, imagens, mensagens em CAPS LOOK, dizendo: BELLE, TU PASSOU!! Bem tola, achei que fosse pegadinha e quando pesquisei tinham postado uma nova lista, pois algumas pessoas haviam passado, mas na lista não constava o nome. Continuei sem acreditar e quando contei aos meus pais, minha mãe deu inúmeros pulos agradecendo a Deus, ficaram mais animados do que eu.
Começar na UEFS foi algo meio difícil para mim. Acabei me sentindo sufocada tentando conciliar o trabalho, mesmo com todo apoio dos meus colegas, com os estudos. Chegou o momento de tomar uma decisão e a partir daí me senti adulta: Devo sair do trabalho e continuar na faculdade ou sair da faculdade e ficar no trabalho? Pensei, finalmente, no futuro e optei por sair do trabalho, ao qual sinto falta até hoje, principalmente dos meus colegas.
Nessa nova fase: desempregada, comecei a surtar novamente, por ainda ter a saúde mental fragilizada. Comecei a me isolar novamente, até que percebi que muitas vezes esse isolamento era uma forma de dizer a mim mesma: Olha amiga, você não está se sentindo bem aqui, então saia! Segui com gratidão as pessoas que me acolheram e peço desculpas, como já pedi há uns anos, se chateei vocês com algo.
Criei um novo recomeço e contava tudo a Deus, como se ele fosse meu psicologo, mesmo sabendo que existe a necessidade real de um profissional, porém na época não tinha o conhecimento e o acesso a estes profissionais. Consegui me livrar dos resquícios das crises da minha adolescência e tudo que não me fazia bem. Descobri que não estava totalmente sozinha, além de Jesus, tinha minha prima (Viky) e meu amigo/irmão (Vini) que sempre me ouviam e tentavam me ajudar a superar esses problemas. Aos 20 anos me senti renovada e antes de completar os vinte, resolvi corta o cabelo, um sinal de recomeço para mim. Hoje, aos 21 anos, me sinto realizada, tenho medos, mas estou tentando superar-los.Sigo contando tudo para Deus, mesmo quando caio de sono na oração - Desculpa, Deus- e ele me fez conhecer pessoas incríveis em cada semestre, cada um a sua maneira e história e sou grata a eles por tudo.
Digo que Jesus me salvou de mim e sem a ajuda dele, por mais que pareça loucura você conversar com que não vê, sentia a sua presença me acalmando e abraçando. Quando comecei a me sentir bem, pude ver quem sou de ângulos diferentes. Comecei uma caminhada de gratidão, ajudar ao próximo, ouvir as pessoas, me amar ( isto foi um processo e não é do dia para a noite), lembrar que consigo e adquiri forças, vindas de dentro, para não desistir e enfrentar todas as situações.
Não iria escrever sobre isto, mas o texto tomou um rumo diferente. Espero que consiga alcançar alguém e ajudar. Quero te dizer que você é especial, não desista de si, há tantas coisas belas que você precisa descobrir. Situações difíceis vêm e você não precisa ser forte o tempo todo, tudo bem não estar bem (sempre me digo isto). Sei que parece clichê e utopia o que estou dizendo, mas um dia, por si só, você irá perceber a importância de olhar para si, tudo bem desabar, sentir a dor, mas não ficar preso a ela, tudo passa e você é melhor do que imagina. Lembre-se: Jesus ama você! Cuide-se!
P.S.- Sobre a minha listinha, desisti de segui-la, pois me desencadeava crises de ansiedade, ficava nervosa e me cobrando. Aprendi a vive um dia de cada vez, isto é importante.
Com carinho,
Isabelle <3

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