Era fim de tarde, quando senti um novo ar, ele estava lá. Como a aurora do amanhecer e o crepúsculo da noite, pálido, brilhante e com um ar sombrio. Charles seu nome. Ele tinha uma Mercedes vermelha e como trevas fechando o sol, não passava desapercebido.
A família de Charles era dona de metade da pequena cidade, Newland. Meus pais, senhor Carlos e dona Mary, tinham uma lojinha no centro da cidade. Eles vendiam souvenir, mapas, vintage, penhores e afins. Eu, Katty, trabalhava meio período com eles e em outro estava no colégio. Charles era da minha turma há 3 anos. Sempre achei estranho o fato dele ser sempre calado, sem risadinha, sem bom dia. Sempre se sentava atrás de mim. Então, um belo dia de sexta-feira 13, a professora pediu para formarmos duplas, sabendo que ninguém iria fazer com ele, me ofereci, pois queria conhecer mais sobre aquele garoto mistério.
Para a minha surpresa, Charles me disse: Não preciso da sua piedade. Posso muito bem fazer sozinho. Nada “flor que se cheire”, respondi de volta: eu escolhi você, então fará comigo, quer queira, quer não. Na mesma hora Charles gritou: tá, tanto faz!
Comecei me apresentando e ele bem rabugento não respondeu. Marquei de ir à casa dele. Todos na cidade temiam a casa dos Mondrim, como se fosse um lugar amaldiçoado ou coisa do tipo. Após sair do colégio, almoçar e tomar banho, peguei a minha bicicleta para subir a colina em direção a casa do Charles. A casa tinha muros enormes, na entrada havia um portão preto, alto e pontudo, com mini lanças. Para entrar, primeiro passava por um segurança, depois era revistado, para a partir daí conseguir entrar na casa. Era um local luxuoso, com o jardim mais verde que já vi, a sala de estar era rodeada de móveis caros, com o teto desenhado igual as igrejas medievais, havia armaduras em pé e afins, fiquei deslumbrada e então ouço uma voz: Coisinha, está surpresa?! Me poupe. Vamos terminar logo isso para me livrar de você.
– Meu nome é Katty. Desculpa ser um estorvo para você, só queria te conhecer melhor e ser sua amiga. Já que não quer e tão pouco se importa, não se preocupe, pois estou indo embora, faço a minha parte e te envio, caso queira me dar seu número, caso não, concluo e entrego amanhã para você ler. Adeus!
– Você quem sabe, Karol. – Disse ele com um ar de deboche.
Como pimenta vermelha e fumegando feito uma chaminé, sai. Passei por todo o processo, novamente, para sair, peguei a minha bicicleta florida e retornei para casa, resmungando mais do que o Eustácio do desenho Coragem, o cão covarde. Estranhamente, quanto mais eu tentava me irritar com a atitude dele, mas me fascinava o fato daquela casa linda ser sombria, feito o olhar dele ao desdenhar de mim.
No dia seguinte, o sol estava brilhando mais forte e percebi a ausência de Charles. Resolvi ir até a casa dele com a desculpa de entregar o trabalho digitado que fiz, já que ele me deu vácuo no Whatsapp, facetime, Instagram…
Chegando lá, percebi que todas as janelas estavam fechadas e cobertas com panos pretos. Por ter ido no dia anterior, os guardas liberaram a minha passagem. Perguntei ao mordomo pelo Charles e me pediu para subir até o quarto dele. Ao entrar no quarto, senti a mesma áurea sombria do dia que estava admirando o pôr do sol, tendo a sensação de que era ele. Seu quarto era repleto de livros, com uma mesa enorme, cabiam duas casas dentro daquele quarto, com um mapa mundi e um espaço para jogos. Era o quarto de um adolescente rico normal.
Sem piadinhas e grosserias, Charles me recebeu. Pediu desculpas pelo ocorrido no dia anterior e aceitou ver o trabalho que fiz.
Estava tudo muito calmo, até que ele leu o trabalho e disse que estava péssimo. Confesso que comecei a chorar ao invés de rebater. Ele me ofereceu um lenço, pedindo para que eu sentasse na sua enorme cama king size ou queen size, honestamente não sei a diferença. Foi então que senti seu perfume de rosas vermelhas com um toque de menta, sua pele pálida e fria tocando minha mão e seus braços longos me envolvendo em um abraço, fiquei sem reação. Charles era tudo que imaginei ao olhar em seus olhos pela primeira vez. Mesmo sentindo uma energia demoníaca em sua volta, sabia que era bom e uma pessoa extraordinária.
Depois do vexame que dei, ninguém tocou no assunto sobre as cortinas, a falta na escola ou sobre o que estava acontecendo com ele. Simplesmente só disse: você não está sozinho, eu estou aqui para você. Não se preocupe! Pela primeira vez senti Charles um humano com emoções aflorando.
Passaram -se semanas e a minha amizade com Charles estava cada vez mais forte. Íamos a parques, piqueniques, visitávamos um a casa do outro, caminhávamos pela praia, nos divertimos. Mas tudo que é bom uma hora para ou acaba, descobrimos que os pais de Charles queriam tirar da minha família a nossa única fonte de renda, a lojinha. Então, Charles ao saber disso, furioso, saiu da minha casa em chamas, literalmente, para tirar satisfação com os seus pais.
Creio que não iria surtir muito efeito, então tentei entrar em contato com ele para explicar que meus pais não o culpava e não precisava brigar com a sua família por nós. Mas não obtive resposta. Comecei a pensar em todo carinho e cuidado que ele vinha tendo comigo nas últimas semanas e decidi ir até a sua casa na manhã seguinte, no sábado.
No caminho para a casa de Charles, percebi tudo muito vibrante e intenso. Mal consegui dormir noite anterior pensando no seu sorriso, naquela pele pálida e alva como a neve, seu perfume de rosas com toque de menta… então freei bruscamente na ladeira e me disse: estou apaixonada por ele? Para meu espanto, haviam pessoas a volta e que em micronésios segundos pararam tudo que estavam fazendo para me dar atenção. Sai à francesa.
Chegando na casa dele, fui direto para o seu quarto, como Jacke- o mordomo- me pediu. Toda desconfortável, pensando se me apaixonei ou não por ele, disse: hey, como você está? Esperando um ” saia daqui” ou até mesmo ser ignorada, Charles me surpreendeu com um abraço e disse: Por favor, Katty, não me deixei. Fique aqui comigo!
– Eu sempre estarei com você! – Disse-lhe sendo sincera.
Em todos os momentos em que penso a minha vida, jamais a imagino sem o Charles. Viramos melhores amigos em poucas semanas e posso dizer que já o amo. Ele me pediu para dormir em sua casa e que seus pais não estariam. Ligamos para meus pais e eles concordaram para a minha surpresa.
Passei horas e horas assistindo filmes ao lado dele. Era perceptível o fato de que não estava bem. Então, repousei a minha cabeça sobre o seu ombro e ele me acarinhou. Até que ouvi um sussurro no meu ouvido: Venha comigo, Katty. E fui.
Ele queria me levar a um lugar especial no terraço da sua casa, assim eu acreditava.
– Preciso te mostrar algo. – Disse ele
– O quê? – Perguntei curiosa
-Isto!
Então senti meus pés fora do chão, seus braços envolvendo a minha cintura e viajamos na velocidade da luz. No terraço do prédio mais alto, assustada, animada e confusa, disse:
– Como isso é possível?
– Tenho algo a te revelar. – Disse ele em tom de tristeza.
– Diga!
– Nunca quis me aproximar de ninguém porque não sou como vocês. Já fui, mas há anos não sou mais. Nunca imaginei que me apaixonaria por uma menina teimosa e que irradia felicidade. Venho te observando há 3 anos e o simples fato de te ver me fazia vivo. Até que num insight você se aproximou de mim e foi inevitável. Meus pais não queriam prejudicar os seus, mas foi uma artimanha para me afastar de você, por medo de que você me rejeitasse. Te peço perdão, Katty!
– Por que rejeitaria você? Você é o cara mais incrível que conheci.
– Você pode não ter associado, apesar de ser bem esperta, mas não sou um humano comum.
– Eu não me importo! Quero sempre estar ao seu lado independente do que seja. Porque pelos seus olhos vi a sua alma e ela me dizia que você é a melhor coisa que aconteceria na minha vida.
Assim, nos beijamos e em segredo ficamos juntos toda à noite, em nosso infinito particular. Nunca soube qual a versão não humana do Charles porque para mim ele sempre será o Charles que senti na colina, naquele fim de tarde, observando o pôr do sol. Aquele aroma leve e refrescante, com aqueles olhos sombrios, não o monstro que diz ser, mas o olhar sedutor de mistério. Mistério que desvendei com um toque de amor. Mistério que quero sempre descobrir ao lado dele. E voar durante à noite de prédio em prédio, colina em colina, deitados na relva assistindo as estrelas e descobrindo o amanhecer, resguardados em uma pequena sombra, assim, até o meu envelhecer.
Por: Isabelle
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